Em tantas ocasiões, nos últimos anos, tenho falado e escrito a respeito do Papa Francisco e do que considero grandes avanços do seu pontificado, que me custa escrever para criticá-lo ou para reconhecer que Francisco usou, para dizer o mínimo, de palavras desrespeitosas e sem caridade em relação às pessoas LGBT+. Francisco se desculpou nos dias seguintes, porém permanecem questões a serem aprofundadas.
Quero mesmo crer que o Papa, ao usar uma expressão italiana vulgar, tenha se referido mais às rendas, bordados e minúcias litúrgicas a que se apega parte do clero e dos seminaristas, do que propriamente a pessoas homoafetivas. O termo usado por ele e vazado nas redes se presta a essas alusões, especialmente em meios machistas e pretensamente heterossexuais. Porém – é preciso dizer – o vazamento das palavras de Francisco geraram grande decepção não apenas entre pessoas LGBT+ ou que trabalham pastoralmente com a diversidade sexual e afetiva, mas também junto a comunidades e grupos que atuam nas fronteiras da evangelização, com os pobres, migrantes, grupos étnicos, raciais e sobretudo mulheres, também elas ainda alvos de piadas e referências preconceituosas e depreciativas.
Já não é aceitável que pessoas eticamente conscientes do século XXI, especialmente lideranças mundiais, se permitam referências de tão pouca consideração aos grupos oprimidos da sociedade, nem mesmo em círculos íntimos. A utilização de alguns termos e expressões denota falta de conversão e convencimento pessoal. Trata-se de um preconceito internalizado e não apenas de incorreção política. Para alguns, isso explicaria o motivo da imaturidade e da lentidão com que são tratados os processos em relação à aceitação definitiva da Diversidade na Igreja e à devolução dos ministérios ordenados às mulheres.
Teria o Papa avaliado, imprudente e ingenuamente, que estava entre amigos e poderia cometer as impropriedades que cometeu? Estaria Francisco convencido de que esse tipo de brincadeira não constitua um pecado que comprometa pessoalmente a evangelização? Ou teria Francisco, inconscientemente, desejado entregar aos inimigos do seu papado, a arma de que precisavam para, enfim, desmobilizar os que mais o defendem? Somente uma leitura psicanalítica mais profunda será capaz de aferir essa possibilidade.
Francisco sabe, como poucos, da existência e do que são capazes pessoas do clero não convertidas ao Evangelho. Estas o atacam claramente ou, na maioria das vezes, de forma indireta. Além dos que sequer se envergonham de usar até mesmo de inverdades contra o Papa, há um número significativo de bispos que, sem fazer enfrentamento direto, boicotam a essência do processo sinodal, realizando reuniões formais com mínima discussão trazida por leigos e leigas, mantendo as prioridades eclesiais de sempre e escondendo as pautas que fariam a Igreja avançar para uma evangelização efetivamente inspirada no Concílio Vaticano II.
O vazamento da conversa informal de Francisco com bispos italianos foi considerado um presente para os grupos e pessoas ultraconservadoras da Igreja. Só a elas interessava divulgar a fala infeliz do Papa, tentando demonstrar que pautas consideradas avançadas, como a defesa dos direitos e da dignidade das pessoas LGBT+ e das mulheres (lembremos a “gafe” dos dias seguintes, na qual Francisco associou as fofocas às mulheres), são apenas tangenciais para o Papa, que seria, também ele, essencialmente um alinhado das pautas e falas conservadoras.
Francisco havia conquistado milhões de novos e antigos fiéis com a sua fala aberta e a coragem de abordar temas-tabu, como a bênção a casais e pessoas LGBT+, o diaconato feminino, o apoio explícito aos movimentos sociais e a condenação do modelo econômico que concentra renda e destrói o planeta. Na área ambiental e no tema da amizade social a contribuição do Papa Francisco tem sido na medida para avanços teóricos e práticos significativos. Os inimigos desses avanços sempre foram os bilionários alinhados ao modelo unilateral de economia e desenvolvimento capitalista, representados dentro da Igreja por grupos e hierarcas, alguns francamente estridentes, da Ultradireita. Pela força dos acontecimentos, das tragédias climáticas em curso e o sinal dos tempos que representa a postura firme de um Papa nessa área, os conservadores perceberam que a realidade se impõe e não há mais como abandonar esses temas.
É na área dos comportamentos morais e da sujeição da mulher ao modelo patriarcal de Igreja que se encontram os maiores embates e dificuldades. Embora esses temas tenham exigido vários estudos e formação de comissões, desde o início do papado de Francisco, eles são os que menos avançaram, malgrado os gritos de oposição diante de pequenos sinais. Esses temas demandam uma conversão mais profunda e mudanças estruturais mais significativas do que a reforma das congregações e dicastérios do Vaticano. Exigem um amadurecimento ético e moral inédito entre homens cisgênero formados e disciplinados em instituições patriarcais seculares.
O Espírito parece inspirar um amor que redunde na atualização da Moral Sexual e na alteração do Catecismo da Igreja Católica à luz das pesquisas científicas atuais. Essencialmente, é contra essa inspiração que a instituição humana, tendente à acomodação, reúne suas maiores forças. À luz da fé, percebemos que há uma luta encaniçada contra a ação do Espírito, que se manifesta na contramão do processo sinodal. Grupos extremistas elegeram o tema do Sínodo e a figura de Francisco como seus alvos principais, ameaçando a Igreja com cismas e desobediência, como se já não vivenciassem, na prática, essa desobediência, espalhando suas teorias fossilizadas através da fundação de novas-velhas instituições, da produção industrial de materiais, custeio de viagens e cursos caríssimos, uma vez que esses grupos creem majoritariamente que a “salvação” procederá dos homens ricos da terra.
Francisco é homem de oração e discernimento. A ele aprendemos a amar como irmão e pastor universal. Sem ele, o processo sinodal, mesmo que incipiente, seria letra morta do Concílio. Quero crer que o Papa será inspirado pelo Espírito em sua reação às consequências de sua fala infeliz e, se Deus assim o quiser, a última fase do Sínodo sobre a Sinodalidade e do seu Pontificado poderá nos trazer novas surpresas do Senhor, especialmente em relação às tão sofridas pessoas LGBT+ e às mulheres.
Edelson Soler – escritor e professor
Grupo de Ação Pastoral da Diversidade – GAPD SP
Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+