Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+

Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT – Organização Sem Fins Lucrativos

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Carta do V Encontro Nacional de Católicos LGBTQIAPN+

Uma Igreja para todos, todos, todos: diversidade, missão e sinodalidade

No coração do cerrado, sob o tempo luminoso dos ipês e a secura que aprende a florescer, reunimo-nos em Brasília (DF) para afirmar, mais uma vez, que a fé cristã não é propriedade do medo, mas morada possível para a dignidade humana. Viemos de muitos lugares – do Norte ao Sul, das capitais aos interiores, das cidades e do campo, das paróquias e movimentos pastorais que nos acolhem às casas onde ainda somos silenciados – e trouxemos conosco nossas histórias, dons, feridas, vocações, buscas e esperanças. Ao nos encontrarmos, descobrimos que também o deserto guarda sementes de comunhão. Como lembrava Rubem Alves ao falar dos ipês: “há floradas que não pedem licença para existir”, assim também é a nossa presença, não mero ornamento da Igreja, mas expressão viva de um povo que insiste em florescer mesmo quando lhe negam chão, palavra ou pertença.

Somos a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+, mulheres e homens, pessoas cis e trans, pessoas não binárias, lésbicas, gays, bissexuais, pessoas negras, indígenas, brancas, amarelas, com deficiência, neurodivergentes, jovens e pessoas 50+, em comunhão com nossas famílias e pessoas aliadas. Como pessoas batizadas na Igreja Católica Apostólica Romana, membros inalienáveis do Povo de Deus, reunimo-nos no V Encontro Nacional de Católicos LGBTQIAPN+ sob o tema “Uma Igreja para todos, todos, todos: diversidade, missão e sinodalidade”, recordando que nada nos separa do amor de Deus (Rm 8,39).

Ao longo destes dias, vivenciamos o método sinodal do escutar, discernir e caminhar, inspirados no magistério do Papa Francisco, como tempo forte de partilha, oração, escuta ativa das realidades locais e renovação dos compromissos da nossa Rede no serviço ao Povo de Deus, à caridade e às periferias existenciais. Reconhecemos que nossa voz e caminhada pastoral nascem da vocação profética da Igreja e da opção preferencial pelos empobrecidos. Por isso, olhamos para a nossa própria realidade com um profundo recorte social: sabemos que a exclusão e a violência atingem de forma mais cruel os corpos LGBTQIAPN+ periféricos. A nossa busca por dignidade e reconhecimento eclesial só é plena quando parte do olhar para esses preferidos do Reino.

Não falamos de sinodalidade como quem repete uma palavra da moda, mas porque a vivemos. E porque ela nos foi negada por tanto tempo, é que aprendemos seu valor na ausência. Neste Encontro Nacional, o método foi o próprio conteúdo: escutamos as histórias dos grupos e das regiões, as dores das desarticulações e as alegrias das retomadas e dos novos grupos que se formaram; refletimos em conjunto, reconhecendo que o discernimento não é consenso forçado, mas escuta capaz de produzir acompanhamento, transparência e corresponsabilidade; e dialogamos com a realidade socioeclesial, com a conjuntura política, com outras tradições religiosas e instituições da sociedade civil.

Aprendemos que acolher e participar são tarefas distintas: abrir portas é fundamental, mas não basta, pois é preciso reconhecer voz, lugar nas decisões e capacidade de transformar métodos e estruturas. Acolher sem reconhecer participação preserva a exclusão sob uma linguagem renovada, e por isso afirmamos nosso desejo de não sermos meros destinatários de ações pastorais, mas sujeitos ativos na vida da Igreja.

Olhamos para os últimos três anos e reconhecemos, com gratidão, que a Ruah divina tem soprado sobre esta caminhada. Não giramos em círculos: avançamos. O que antes era apenas desejo tornou-se gesto concreto, e pela primeira vez em nossa história temos um bispo referencial que acompanha a Rede, Dom Arnaldo Carvalheiro Neto (Bispo da Diocese de Jundiaí – SP), cuja proximidade e escuta testemunham que a Igreja pode nos reconhecer como sujeitos eclesiais e não apenas nos destinar acompanhamento pastoral. Esse marco não celebramos sozinhos: é fruto da nossa articulação com o Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), do qual somos membros desde 2022 e de tantas pessoas aliadas que construíram pontes com paciência e coragem.

Alegra-nos ainda registrar que, pela primeira vez, o Encontro Nacional contou com representantes da Região Norte, por meio do Grupo Diversidade Católica Manaus, sinal de que a Rede se torna brasileira não apenas no nome, mas na presença efetiva. Realizamos o lançamento da publicação do livro “A Igreja é de todos, todos, todos: reflexões de pessoas católicas LGBTQIA+, aliadas e familiares”, que nasce de muitas vozes, guarda nossa memória, sistematiza nossa reflexão e se oferece como instrumento de formação e de diálogo: a memória que se torna testemunho e o testemunho que se torna missão.

Celebramos, com particular alegria, a participação e o protagonismo de pessoas trans e não binárias em nossas comunidades como sujeitos que enriquecem a Igreja com sua existência, sua teologia encarnada e sua luta por dignidade. Com coragem e ternura, assumimos os compromissos que queremos construir: fortalecer a sustentabilidade organizativa, ampliar a formação bíblica, teológica e pastoral, porque a formação é direito do laicato e condição para a maturidade eclesial. E anunciamos com entusiasmo e esperança a Equipe Nacional eleita para o triênio 2026-2029, celebrando a caminhada e confiando nos desígnios do Espírito Santo para que santifique ainda mais a nossa missão profética e evangelizadora.

Afirmamos que a interseccionalidade é critério assumido da nossa organização, garantindo escuta e protagonismo efetivos de pessoas trans, não binárias, negras, indígenas, brancas, amarelas, com deficiência, neurodivergentes, jovens e 50+, e com a presença indispensável de pessoas aliadas, construindo núcleos e espaços que respondam a necessidades específicas, como o núcleo 50+ nascido do cuidado com a solidão e o envelhecimento das pessoas LGBTQIAPN+. Queremos aprofundar a relação com as igrejas locais e os organismos eclesiais, ampliar o acompanhamento de todas as regiões, estruturar nossa presença pública e incidência no diálogo entre fé e política, e estender nossas parcerias com movimentos populares e organizações da sociedade civil nas periferias sociais e existenciais.

Por fim, entendemos como a atual conjuntura sócio-política do Brasil atravessa todas as pessoas, especialmente as vulnerabilizadas, como nós, LGBTQIAPN+. A nossa pauta é indissociavelmente democrática, mas é, antes de tudo, uma pauta pela nossa existência. Se existimos como grupos católicos LGBTQIAPN+, é justamente porque o discurso hegemônico e conservador nos invalida e busca nos apagar. Denunciamos, assim, a instrumentalização das Sagradas Escrituras para sustentar projetos políticos de poder, a difusão de pânicos morais por meio da desinformação, as tentativas de retrocesso em direitos já conquistados, que causam graves sofrimentos psíquicos e ceifam vidas. Defendemos o Estado laico não como silenciamento da fé, mas como garantia de que nenhuma tradição religiosa imponha suas convicções ao conjunto da sociedade; a fé que nos move é a que se compromete com a justiça, com os direitos e com a dignidade humana, e que resiste a toda captura do Estado por projetos confessionais excludentes.

Desejamos uma Igreja em que ninguém precise diminuir-se para caber, uma Igreja que aprenda a escutar as experiências LGBTQIAPN+, nos acolhendo e celebrando; uma Igreja sinodal, na qual o “todos, todos, todos” deixe de ser apenas lema inspirador e se traduza em práticas concretas de participação, reconhecimento e cuidado. Pedimos que o sopro da Ruah nos ajude a atravessar o tempo presente com lucidez, mansidão e firmeza, que a delicadeza dos ipês nos ensine a beleza da resistência e que a grandeza do cerrado nos recorde que a esperança também cresce em terrenos difíceis. Maria, Mãe Negra Aparecida, que cantaste o Magnificat profetizando que os poderosos seriam derrubados de seus tronos, nós confiamos em ti: intercede por nós, para que a nossa luta seja sempre profecia. Seguimos como peregrinos da esperança, confiando que o Evangelho de Jesus continue a abrir veredas onde muitos só enxergam muros.

V Encontro Nacional de Católicos LGBTQIAPN+

Brasília (DF), 2 de novembro de 2026

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